Mostrar mensagens com a etiqueta populações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta populações. Mostrar todas as mensagens

26/03/15

Parecer: Novo Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros

MUSP Logo

Proposta de Lei nº 287/XII//4ª (Gov)

Novo Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros
(Parecer)
Está em discussão na Comissão de Economia e Obras Públicas a Proposta de Lei nº 287/XII/4ª (Gov) que aprova o Regime Jurídico do Serviço Público de Transporte de Passageiros.
Esta é uma proposta que, a ser aprovada, irá ter grandes implicações na vida quotidiana das pessoas e na sua economia familiar. Assim, a sua aprovação deveria ser antecedida de um grande debate público e um grande diálogo entre todas as partes interessadas, nomeadamente, o governo, as autarquias, os trabalhadores do setor e os utentes.
Pelo contrário, o Governo pretende que esta proposta de lei seja rapidamente aprovada sem dar tempo a que um verdadeiro debate público seja efetuado e feita a avaliação dos impactos que a concretização desta lei irá provocar no imediato e no longo prazo.
O preâmbulo do Decreto-Lei reconhece que o Regulamento (CE) n.º 1370/2007 apenas impõe a celebração de contratos de serviço público entre o Estado e os prestadores públicos de transporte, contratos onde se definam os níveis de serviço público e os montantes das indemnizações compensatórias a pagar por esse serviço público. E até reconhece o que está escrito nos tratados europeus: que para a União Europeia é formalmente irrelevante se os serviços públicos são assegurados por entidades públicas ou privadas.
No entanto o Governo continua a optar pelo caminho da «concorrência regulada», ou seja, da entrega da exploração do serviço público de transporte ao capital privado através de concessões. É uma opção errada, e que onde foi imposta causou enormes prejuízos aos utentes, ao estado e aos trabalhadores. É a opção das grandes multinacionais europeias que almejam gerir todos os sistemas de transportes na europa e assim cobrar avultadas rendas aos povos. É uma opção que deve ser combatida e derrotada.
Essa opção errada que o Governo quer impor – com consequências desastrosas para os utentes e para o erário público – promove ainda uma extraordinária precariedade nos atuais prestadores privados de transportes públicos rodoviários, apontando para o fim das atuais concessões (renomeadas de autorizações) até o final de Dezembro de 2015 e a sequente colocação em concurso público de todas elas, em formas múltiplas e diversas ainda a estabelecer, que podem ser municipais, intermunicipais ou regionais, mas que acarretam inevitavelmente riscos para as atuais empresas privadas detentores das concessões como para os trabalhadores dessas empresas.
Por outro lado, e mais uma vez, o Governo transfere competências para as Autarquias mas sem transferir as verbas correspondentes do Orçamento de Estado. Com esta transferência de competências para as Autarquias, Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto e Comunidades Intermunicipais iremos ter, potencialmente, cerca de 330 Autoridades de Transporte no espaço nacional.
 
No caso da extinção da AMTL e AMTP, transfere as suas competências e trabalhadores para a AML e AMP, mas transfere apenas as verbas para 2015, apontando que a partir deste ano devem as autarquias arranjar novas receitas. É também transferido para as autarquias a responsabilidade de suprir as indemnizações compensatórias pela prestação do serviço público. Estas medidas, destinadas a sufocar financeiramente as autarquias e as empresas públicas, são completamente inaceitáveis, para mais quando é o Estado Central o grande cobrador dos impostos pagos pelo povo, impostos que devem ser alocados à prestação dos serviços públicos e não expropriados para garantir o pagamento de rendas ao capital financeiro e aos grandes grupos económicos e das PPP, dos juros, das swaps, de submarinos, etc..
A transferência de responsabilidade de financiamento do sistema do OE para as autarquias significa um pior serviço e custos mais elevados para os utentes e/ou encargos fiscais ou parafiscais suplementares para os cidadãos.
 
A ser implementado este sistema estarão em causa custos sociais consideráveis. A atratividade efetiva do sistema de transporte público em relação ao individual será reduzida, ou seja, vai haver menor confortabilidade dos equipamentos de transportes como dos espaços urbanos públicos e uma menor competitividade nacional no plano internacional, com mais custos energéticos e um maior impacto ambiental negativo.
Por outro lado, o investimento em infraestruturas e equipamentos a ser transferidos para os operadores privados, estes não deixarão de fazer repercutir tais encargos nas tarifas passando a responsabilidade para os utentes e autarquias.
Entretanto, é intenção do Governo concessionar/privatizar as Empresas de Transporte Público de Lisboa e Porto antes da concretização da transferência de competências para as respetivas Áreas Metropolitanas, sem que haja uma avaliação do que efetivamente vai ser transferido.
Não é claro o grau de articulação e contratualização efetiva entre as atribuições e as competências das administrações central e local bem como pelas Áreas Metropolitanas e Comunidades Intermunicipais. Também não é claro quem é o acionista, a autoridade de transportes e o regulador.
Finalmente, não é avaliado o contributo que o novo sistema de transportes vai ter no que diz respeito à coesão territorial e socio económica no todo nacional. Quanto a nós irá haver impactos muito negativos no direito das populações à mobilidade, nas atividades económicas e consequentemente no desenvolvimento do país. É muito grave que não seja feita a sua avaliação préviamente à aprovação da proposta de lei.
Assim, pelo que foi anteriormente explicitado, o Movimento de Utentes dos Serviços Públicos – MUSP manifesta a seguinte posição:
1.      Reclama que uma reforma como esta com grande impacto na vida quotidiana das pessoas e na sua economia familiar, só deveria ser aprovada e implementada depois de um amplo e esclarecedor debate público e um grande diálogo entre todas as partes interessadas, nomeadamente, a administração central, as autarquias, os trabalhadores do setor e os utentes;
2.      Rejeita que o financiamento do sistema de transportes seja transferido para as autarquias e os utentes através da criação de novos impostos e taxas com repercussões negativas nas economias das famílias;
3.      Rejeita que o Governo prossiga na concretização da concessão/privatização das Empresas Públicas de Transporte que operam nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto;
4.      Rejeita que se criem, potencialmente, cerca de 330 autoridades de transportes com zonas de competências eventualmente conflituantes, nos níveis municipais, intermunicipais e nacionais. Desta situação seriam beneficiados os operadores privados em detrimento das autarquias, dos utentes e dos trabalhadores do setor.
5.      Reclama que seja implementada uma política de transportes públicos que sirvam as populações a custos acessíveis a todos e com a qualidade adequada para desincentivarem a utilização do transporte individual a bem da qualidade de vida e de trabalho e de um ambiente saudável.
Por tudo o exposto, parece-nos de uma elementar prudência submeter esta proposta de lei a uma efetiva discussão pública, ficando desde já registada a nossa oposição a questões estruturantes do seu conteúdo, como ficam resumidas neste texto.
Lisboa, 23 de março de 2015
Movimento de Utentes dos Serviços Públicos - MUSP

24/11/14

Orçamento da Saúde para 2015 - Posição do MUSP

MUSP Logo
O Movimento de Utentes dos Serviços Públicos-MUSP vem reclamar uma política de saúde que sirva realmente todos os portugueses, através do Serviço Nacional de Saúde.
O SNS deu um contributo que, não sendo o único, foi decisivo para a melhoria muito significativa dos indicadores de saúde em Portugal apesar da ofensiva a que tem sido sujeito ao longo dos seus 35 anos de existência. 
De facto, num relatório sobre a saúde em 34 países recentemente publicado pela OCDE é sublinhado que Portugal é o 5º país com melhor evolução na esperança de vida, é o primeiro no declínio da mortalidade infantil, está acima da média no indicador global para resultados em saúde, sendo o 2º com melhor evolução entre 1970 e 2009, mas é, no entanto, o 3º País em que a despesa pública menos cresceu.
A redução da despesa do Estado com a Saúde, num espaço de quatro anos, obriga os utentes a suportar, através do seu orçamento familiar, uma parte maior dos custos com a saúde, significando que quem não pode pagar não tem acesso à saúde.
Neste momento, com a política de cortes na despesa pública, Portugal é, assim, o país onde as despesas das famílias com a saúde mais cresceram (4,2% do seu orçamento quando a média dos países da OCDE era de 3,2%). Atualmente cerca de 28% do total das despesas em saúde é pago diretamente pelas famílias, fundamentalmente em resultado da existência das taxas moderadoras mas também do crescente aumento da procura dos cuidados de saúde em instituições privadas.
A redução de 1.667 milhões de euros na despesa com o Serviço Nacional de Saúde, entre 2010 e 2014, passando, de acordo com dados do Ministério da Saúde, de 9.710 milhões de euros para 8.043 milhões, mostra a intenção do Governo de destruir o SNS, através do seu estrangulamento financeiro e quebra do investimento público. Para 2015 o governo propõe um montante de despesa de 8 116,8 milhões de euros. O ligeiro aumento em relação a 2014 não é suficiente para resolver os estrangulamentos verificados no funcionamento do Serviço Nacional de Saúde.
Com grandes preocupações, as populações, os utentes, vêm o acesso aos cuidados de saúde primários, continuados e paliativos, cada vez mais difícil, em consequência de:
  • Encerramento de serviços de proximidade – centros e extensões de saúde, urgências hospitalares e SAP, maternidades;
  •  Redução de horários de funcionamento de serviços e valências, ficando os utentes sem resposta no período noturno e nos fins de semana e feriados;
  • Encerramentos e transferências de valências hospitalares;
  • Continuação de uma situação insustentável de cerca de 1,6 milhões de utentes sem médico de família;
  •  Grandes dificuldades no funcionamento das urgências hospitalares, consequência da falta de uma verdadeira reorganização hospitalar;
  •  Falta de camas na rede de Cuidados Continuados, dando prioridade à resolução de assimetrias, sendo as Regiões da Grande Lisboa e Porto as mais necessitadas;
  • Falta de meios técnicos, humanos e financeiros para o regular funcionamento dos hospitais e centros de saúde;
  • Pagamento de taxas moderadoras elevadas e injustas, diminuindo o número de utentes isentos;
  • Dificuldades no acesso fácil e imediato às viaturas de emergência, insuficientes e, por vezes, inoperacionais;
  • Más condições de funcionamento de hospitais e centros de saúde.
Concluindo: a enorme degradação dos serviços públicos de saúde, com fechos de serviços e valências, de unidades de saúde e urgências, com a falta de técnicos de saúde, de equipamentos, de material médico e de camas e com o aumento dos custos para os utentes, como acima se enumera, irá ser seguida com este OE para 2015 que aponta na continuação da mesma política e que confirma os eixos essenciais do Governo de desmantelamento das funções sociais do Estado.
A degradação do serviço público para “virar” os utentes contra o Serviço Nacional de Saúde e, assim, facilitar a aceitação da sua privatização, a transferência dos custos do Estado para os utentes, a compressão dos direitos dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde são algumas linhas estratégicas que apontam para um processo de privatização.
E no OE para 2015, na Saúde são inscritos 1.320 milhões de euros em PPP-Parcerias Público Privadas, prevendo-se o lançamento de mais PPPs no sector da Saúde. Por outro lado, está previsto a entrega ao setor social, nomeadamente às Misericórdias de mais hospitais, como recentemente sucedeu com os hospitais de Anadia, Fafe e Serpa.
O Movimento de Utentes dos Serviços Públicos, como organização de utentes a nível nacional, considera fundamental a inversão da política de cortes cegos na despesa sem ter em conta os interesses das populações e apresenta como grandes linhas reivindicativas:
  • Defesa do Serviço Nacional de Saúde geral, universal e gratuito conforme inscrito na Constituição da República Portuguesa;
  •  Revogação das taxas moderadoras, garantindo que todos os utentes independentemente da sua condição económica e social possam aceder aos cuidados de saúde;
  • Isenção de encargos com transporte não urgente de doentes, tendo em consideração as necessidades da prestação de cuidados de saúde aos utentes;
  • Dotação do Serviço Nacional de Saúde dos profissionais de saúde necessários ao seu bom funcionamento e respeito pelo seu estatuto profissional;
  •  Revogação do Decreto-lei nº. 138/2013, de 9 de Outubro, com vista a impedir o processo de transferência dos hospitais do setor público para o setor social, mais concretamente para as Misericórdias;    
  •  Médico e enfermeiro de família para todos os utentes;
  •  Articulação entre os diversos níveis de cuidados de saúde, particularmente nos cuidados de saúde pública e cuidados de saúde primários e reforço da rede de cuidados continuados e paliativos;
  •  Reforço da organização dos meios de emergência médica.
O Movimento de Utentes dos Serviços Públicos-MUSP, no cumprimento do direito constitucional à proteção da saúde, solicita a tomada de medidas em defesa do Serviço Nacional de Saúde que respeite o princípio da equidade e o pleno acesso das populações a cuidados de saúde de qualidade.
21 de novembro de 2014
Movimento de Utentes dos Serviços Públicos